Para o António e Joana
Quem guarda os guardiões do tempo dos outros? Os perseguidores de tempestades e do eco dos gritos sofridos.
Os tão afamados heróis sem capa, sem nome e sem face. Os que sonham os sonhos dos outros e neles encontram o fio de prumo que serve a construção.
Quando a noite desce sobre eles, serão invisíveis? São certamente agarrados pelo cachaço por uma mão invisível que todos nós sentimos de quando em vez.
Há quem os ache místicos e poderosos, e há quem lhes ofereça uma desconfiança desconcertante. Nestes paradoxos, são desafiados a uma superação constante. Despem-se de si e habitam um corpo estranho que não é o deles, como se fossem a sua própria sombra.
Notamos uma silhueta que nos é vagamente familiar mas não conseguimos descortinar mais. O silêncio, a dúvida, a escuta são as ferramentas da labuta diária. Pouco param para limpar o suor do rosto sofrido de quem é vizinho permanente da tragédia e do drama.
Já os ouço a verter um suspiro mudo, vejo-os a chorar uma lágrima escondida, procurar um qualquer recanto para se esconderem do mundo. Relembro-me do quanto aprendi com eles e apenas espero que na balança da vida, quando São Pedro fizer as contas ao seu destino, pese isto e lhes legue as chaves para que possam sempre escolher por onde querem ir.
